Bruno Moreschi

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Em obras
por Marta Ramos-Yzquierdo
Texto escrito para a exposição Em Obras, São Paulo, Brasil.

“A arte moderna começa com a renúncia à pintura de História.” (1)



A INDEPENDÊNCIA VAI DESAPARECER. É fato. A pintura conhecida como “O grito do Ipiranga” de Pedro Américo, 1888, encomenda feita pela família real brasileira para exaltar a figura de D. Pedro I e plasmar no imaginário o símbolo da independência de Portugal proclamada em 1822, não poderá ser vista até 2022, ano no qual serão terminadas as reformas do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em cuja coleção a obra se encontra.

Sem propor a debater a significação política da criação de mitos históricos, na própria obra e no próprio museu (todo seu acervo é relativo à independência), sua decadência e sua reinauguração, a realidade é que uma das pinturas de referência da cultura popular brasileira só vai estar disponível à nossa visão através de reproduções nos próximos nove anos.

Esta é a noticia com a qual Bruno Moreschi começa a dar forma ao projeto “Em obras”. A primeira proposta é a reprodução da famosa imagem de Américo, em partes e destacando alguns detalhes, feita por várias mãos de “pintores de rua” no ateliê do artista, o qual atuava como assistente.

É uma primeira camada da investigação que o artista vem desenvolvendo, que em sua forma mais abstrata eu chamaria “do visível e do invisível”. Porque a obra original vai passar a ser invisível, porque os destaques são personagens normalmente não percebidos nem citados na história oficial: um tropeiro, um boiadeiro e um pessoa na janela de uma casa. São as testemunhas mudas, os invisíveis do relato visível.

A reivindicação do conteúdo se revela também no processo: as peças foram produzidas em colaboração por uma equipe de diferentes pintores que comercializam seu trabalho negociando diretamente com o cliente e usando o espaço público como lugar de vendas. São esses trabalhadores ou profissionais da arte que, assim como um assistente tanto no Renascimento como agora, permanecem invisíveis na instituição arte.

Nesta ocasião todos eles aparecem como artistas da mostra, todos são autores das obras. O interessante deste processo são as relações criadas, para além do conceito de obra ou de autoria, já que estamos falando a partir de um espaço que faz parte do aparelho validador da arte contemporânea. Cada uma das pessoas contratadas como um trabalhador para realizar a cópia de uma obra, estabeleceu uma relação laboral. E aqui se levanta a grande questão sobre o que seria e o que definiria um artista profissional, um trabalhador, portanto, em nosso ambiente de arte contemporânea e fora dele.

Diálogo 1:
BM - Não vamos terminar toda a pintura, acho melhor mostrar um pouco o processo... Que tal?
P1 - Você tem certeza?
BM - Qual é o problema?
P1- É que vão achar que pinto mal.

Habilidade, destreza, acabamento, processo, finalização, certeza. Um produto acabado não deixa à vista nenhuma das partes do processo. A obra de arte é só um produto num contexto de mercado, mas tem, ou deveria ter, um significado e uma autonomia para além deste. A atividade artística contemporânea não se enquadra apenas aos meios e sistemas de produção. Além do mais, seus processos abertos à crítica e autocrítica, ao livre pensamento ou à dúvida podem / costumam gerar estupefação e/ou desagrado de uma grande maioria da sociedade, mais ainda se sua forma de concretização – que poderia ser qualquer uma – se afasta das tradicionais belas artes.

Sigmar Polke dizia que a pintura não era mais que uma moral construída.

“Independência ou morte”, esse é o título original da obra do Ipiranga, mas A INDEPENDÊNCIA É CIRCUNSTANCIAL, por vários motivos: porque afinal não estamos falando do que aconteceu às margens do Ipiranga, mas principalmente, porque qualquer pergunta que lancemos sobre as relações criadas num sistema dependem de seu contexto.

A segunda ação realizada por Moreschi consistiu na contratação de nove pintores de parede para que livremente escolhessem uma cor, uma forma e um pedaço de uma das paredes da galeria para aplicar a tinta. A composição foi totalmente determinada por eles – por acaso todos realizaram retângulos como nas provas de cores, embora numa disposição livre – sem indicação ou julgamento estético algum do artista.

Diálogo 2:
P2 - Mas eu sou pintor de parede. Estou acostumado a pintar parede...
BM - Mas vai ser na parede.
P2 - Mas eu pinto sempre do mesmo jeito. Vou ter que criar?
BM - Vai ter que escolher o jeito que você achar melhor...
P2 - Vale tudo?
BM - Vale.
P2 - Então a conclusão é que vou ter que criar.

O materialismo histórico divide a sociedade em proletários e capitalistas; Hanna Arendt, em Animal laborans, o técnico para o qual o trabalho é um fim em si mesmo, e Homo faber, produtor superior de pensamento. Richard Sennet, por sua vez, propõe um sistema no qual a ação da mão e do cérebro aja de forma conjunta, sem negar a ninguém a capacidade dessa dupla ativa e reflexiva, e que chegaria à sua máxima potencialidade nos trabalhos colaborativos horizontais (2).

Unindo as ideias de Rosalind Krauss (3), que define a prática artística como uma série de operações lógicas efetuadas sobre termos culturais, às de Bourriaurd (4), segundo as quais “fazer a obra é inventar uma maneira de trabalhar, mais que ‘saber fazer’ tal coisa melhor que outras”, poderíamos pensar na instalação “Pintores” como uma proposta para repensar novos contextos sociais através da reflexão dos termos artesanal e relação de trabalho.

O desafio continua sendo a conexão real do mundo da arte contemporânea e da sociedade na qual se insere. Qual é o conceito de trabalho, e o conceito percebido sobre o trabalho do artista e/ou o artista como trabalhador?

Diálogo 3:
P3 - Pode ligar para minha mulher. Diz que virei artista. Vou terminar aqui e depois deitar na rede.


1. Nicolás Bourriaud, Formes de vide. L´art moderne et l´invention de soi, 1999.
2. Richard Sennet, The Craftsman, 2008
3. Rosalind Krauss, L´Originalité de l´avant-garde et autres mythes modernistes, Paris, 1993.
4. Nicolas Bourriard, op. cit.

* Marta Ramos-Yzquierdo é curadora independente.









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Alguns dos textos do site foram escritas em conjunto com a curadora Caroline Carrion. / Some of the texts on the site were written in conjunction with curator Caroline Carrion.