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Crime perfeito
por Victor da Rosa.
Texto escrito para o projeto Procura-se

Ao reunir na mesma parede uma série de quinze retratos semelhantes entre si (que formam, por sua vez, um único retrato), Bruno Moreschi e Camila Régis tocam em um dos problemas centrais do gênero: a semelhança. Parece essencial pensar em Procura-se como um único retrato, sendo que não faltam evidências materiais para isso, pois é apenas assim que o problema da semelhança (ou seja, dos contrastes entre as imagens) será exposto. E o que seria exatamente uma semelhança no retrato?

Em um pequeno texto sobre o assunto, Maurice Blanchot, o escritor de quem pouco conhecemos o rosto, define tal relação da seguinte maneira: “Um retrato não é semelhante por se fazer similar ao rosto, mas a semelhança começa e existe com o retrato e apenas nele”. E conclui, de modo diferente talvez do que se possa supor: “A semelhança não é um meio de imitar a vida, e sim de torná-la inacessível”.

A obra, que recebeu este título tão prosaico quanto irônico, apropriado também de um imaginário policial, parece nos dizer justamente que retrato nada tem a ver com reconhecimento. Quer dizer, o que aparece embaralhado é a própria expectativa de que o quadro remeta à pessoa que ele representa. Na verdade, a remissão existe, aliás são várias as remissões, mas fica comprometida por ser de tal maneira multiplicada, reproduzida, contrastada, excedida. Dessa forma, o que as imagens de Procura-se revelam é a distância que se abre entre elas, fazendo dessa espécie de vazio o grande assunto do retrato, e, consequentemente, fazendo do rosto um puro semblante.

O título dos retratos faz ainda o trabalho duplo de se referir, primeiro, aos retratistas policiais que preservam a técnica manual, praticamente em desuso após o desenvolvimento de programas de computador, e depois ao próprio artista, desaparecido no meio de tantas imagens desencontradas. Seja como for, se no primeiro caso a procura resultou mais ou menos profícua, já que o artista conseguiu encontrar 15 destes retratistas, no segundo torna-se inútil. Daí o aspecto irônico do título: apesar de tanta procura, sabemos que o artista jamais será encontrado. A ironia se dirige contra o pressuposto de que um retrato pode revelar a identidade de um sujeito.

Jean-Luc Nancy define o que seria um bom retrato: “é quando a semelhança mobiliza todos os traços do rosto para levá-los em direção a uma ausência”. Por outro lado, um mau retrato seria aquele que “enumera uma série de traços característicos”, ou seja, cria estereótipos. A partir dessa perspectiva, o que Moreschi e Régis parecem nos dizer é o seguinte: o retrato falado, na medida em que recorre a uma descrição imparcial e exata do criminoso, só pode ser um mau retrato. Paradoxalmente, é daí que surge seu interesse. Isso porque, ao expor um mau retrato – na verdade, ao associar vários deles no mesmo espaço – a dupla expõe também sua falta de coincidência interna, o próprio processo de construção da semelhança. Trata-se portanto de um retrato que se consagra menos à autorrepresentação do artista (exata, imparcial, como queira) do que ao ato ou procedimento de representar – sem dúvida o eixo central de todos os projetos recentes de Moreschi.

Existe outra ambivalência que diz respeito à ideia de identificação. Por um lado, na medida em que Moreschi e Régis se apropriam do procedimento do retrato falado, o rosto do retratado se torna a própria finalidade da imagem, ou seja, aquele que é procurado, e então identificá-lo parece ser a questão primordial. Mas simultaneamente a identificação do modelo é o que existe de mais dispensável na obra. Dizendo melhor, o modelo só importa em Procura-se, como na grande maioria dos retratos da história da arte, porque é exposto como pura ausência. Por sua vez, Nancy diria: ex-posto. Não é por acaso que da identidade de Mona Lisa, talvez a expressão máxima da arte do retrato, não conhecemos nem mesmo seu sexo.

Por fim, uma última associação. Conforme o relato de Walter Benjamin, o pintor Gustave Courbet se queixava frequentemente de um de seus modelos, que no caso era Charles Baudelaire. Isso porque, segundo Courbet, o poeta estava sempre com uma “aparência diferente”. Benjamin ainda se refere a sua poesia como uma tentativa não de testemunhar a história, tampouco um delito, mas de descrever os olhos que perderam a capacidade de olhar. Champfleury também atribuía ao poeta “o dom de dissimular a expressão do rosto como um fugitivo das galés”. Assim resume Benjamin: “Por detrás das máscaras que usava o poeta em Baudelaire guardava o incógnito”. Eis aí uma conclusão que, embora mais ou menos evidente, não deixa de ter certo interesse: o artista é um criminoso. E como todo crime perfeito, dele jamais teremos notícia.

* Victor Rosa é doutorando em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina e colabora com resenhas, crônicas e ensaios em diversas publicações culturais. Em 2010, foi selecionado pelo prêmio brasileiro Rumos de Crítica Literária do Itaú Cultural.

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